Carta 02

Time Travelled — 5 months

Peaceful right?

15/09/2025 Minha terna Juliana, Você não detém um nanograma (se é que tal absurdo existe) de noção do quanto por ti, sofro. Hoje mesmo tive a infelicidade de me lembrar de que antes de perdermos uma a outra, eu te pedi em casamento, e minha atitude só não foi mais louca e idioticamente romântica do que o seu sim. Essa é apenas a minha segunda carta, e ainda assim, já sinto como se me faltassem palavras para o crescente volume de coisas que tenho a dizer. Poucas coisas mudaram desde a sua partida, eu sinto que ainda sou a mesma, embora de formas diferentes, exerço ainda minha essência. Por exemplo, ainda acho que tudo o que falo é tão inteligível quanto o balbuciar de um bebê ou o pigarreio de um bêbado. As melhores coisas que já escrevi foram sobre você, as piores também, mas você não está mais aqui para as ler. O último poema que compus em sua homenagem é feio e talvez até degradante, não porque a insultei ou a maldisse, mas sim pela minha dificuldade em redigir qualquer coisa que não fosse uma ode ao seu amor e beleza. Descrevo esse poema de tal forma que talvez passe uma imagem errônea, e quero tranquilizá-la de que ele não passa de um reflexo duro de olhar da minha própria dor em prol do nosso namoro. Estou frustrada por ter que escrever essa carta. Eu havia escrito uma já, em outra plataforma, mas acabei a perdendo por culpa de um desfalque do aplicativo. Na hora fiquei chateadíssima e pensei até em parar e desistir, mas no fundo sabia que iria retomar esse mal hábito. As vezes me pergunto se quando você receber a primeira carta a sua vontade será de nem abri-la e simplesmente a deletar, ou, quem sabe, bloquear meu email. Eu não a culparia disso, nem mesmo ficaria contrariada com isso, sendo sincera, eu já espero que tome uma decisão assim. Eu só torço desesperadamente para que não a faça. Talvez por nutrir essa suspeita eu não envie as cartas com prontidão. No entanto, recentemente fui acometida pelo ímpeto de lhe enviar essa carta para essa exata semana, mas não acho prudente, ainda agora comentei da possibilidade de você me bloquear! Tem momentos nos quais eu questiono se o envio dessas cartas não é um ato cruel e mesquinho. Talvez seja, mas qual amor juvenil não o é? Até você, minha amada noiva, tem esse tino para a perversidade. Veja bem, meu objetivo não é e nem nunca foi, o seu mal estar ou a baixa estima do seu amor e carinho pela minha pessoa, minha última alegação se trata apenas de um fato constatado. Tem uma grande chance de você não se lembrar do nosso noivado, e sinceramente, por um momento até mesmo eu o havia esquecido. Um absurdo, não? Visto que eu fiz a proposta, e, é válido lembrar, mais de uma vez. Contudo, a sua adesão só se realizou na segunda, talvez terceira, vez que pedi a sua mão. É difícil perder o primeiro amor, ainda mais em um período tão desafiador como o qual me insiro, mas pior do que essa desfortuna, é a perca da minha linda noiva, eternamente a mulher que mais amei em vida. Na maioria dos dias eu sinto como se você já tivesse seguido em frente, e feito isso com uma facilidade assombrosa. Não estou pronta para me curar e ver você como uma estranha, desconhecida após tanto tempo sendo a única que podia traduzir a sua alma, os seus anseios e temores. O dia do nosso reencontro se aproxima. Uma vez você me disse que se terminássemos, não iria para a própria formatura, tudo para evitar a mínima chance dos nossos caminhos se cruzarem novamente. A bem da verdade, não sei se anseio por esse momento como uma esperança ou se me retraio em pavor e ânsia. Quando imagino te ver de novo sinto o sabor da bílis, ao mesmo tempo sinto uma urgência, inexplicável apenas para quem não amou antes. Quando eu planejo o que vou vestir, o que vai me adornar, sempre penso em você e no que vai achar, idealizo a sua reação de choque e afeto ao me olhar pela primeira vez em meses. Sinto uma apneia lancinante apenas de cogitar uma rejeição sua, por menor que seja. Seja você me ignorando, ou sua frieza, tão incomuns e hostis para comigo. A sua grosseria, petulância ou ingratidão não são novidades para mim, e eles espero reaver. Podem ser seus piores traços, mas são a mim mais conhecidos e apreciados do que a possibilidade da sua indiferença. Tolamente, imagino-a escrevendo cartas para mim também, dizendo que sente minha falta como eu sinto a sua, que me ama como eu te amo, e que me quer ao seu lado como eu a quero. Creio que essa última parte você nunca tenha entendido em sua totalidade. Por ti eu era vista como posse, propriedade a ser reclamada, e fui conivente de não a ter reprimido antes, talvez com mais assertividade. Acho que, por me enxergar dessa forma, fosse tão árduo suprimir os seus ciúmes. Sempre a vi como alguém a somar, nunca me senti intitulada de nada, mas queria desesperadamente ser vista como igual. Eu nunca te contei isso, mas mais de uma vez, você fez com que eu me sentisse menos eu, subumana comparada contigo, a outra parte, detentora dos direitos que eu queria para mim. Com isso quero dizer apenas que, por mais que não fosse sua intenção, eu era, ainda, objetificada, vista como um belo acessório ou conquista. E não me isento da minha parcela de culpa, uma vez que eu mesma me coloquei nessa posição para você, tudo para o seu conforto sempre. Até o momento que perdeu o sentido. Por que eu tinha que me reduzir pelo seu refresco? E onde eu fico? Não havia razão plausível, e eu não deveria ter que me mitigar por nada nem ninguém, queria que você conseguisse me amar sem tentar me prender e controlar. Juliana, eu te vejo em todo lugar que vou, em toda música que escuto e em todo cheiro que sinto. Se acaso desperto mais feliz um dia, é porque fui visitada por lembranças suas, da mesma forma que se acordo na mais profunda miséria, é em razão de ter tido meu coração assombrado pela falta do seu calor. Com as mais profundas saudades, Aninha.

Sep 16, 2025 → Feb 15, 2026 • 1075 words
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