A letter from Jul 30, 2024

Time Travelled — over 1 year

Peaceful right?

Dear FutureMe, Como você tem estado? Eu não tenho estado muito bem esse ano. Não sei se você vai se lembrar, mas tudo anda tão melancólico e vazio. Existem vezes que arrasto meu corpo sem vida até o passado e fico lá, tentando procurar cura. Me faz pensar que nada em este mundo fica, tudo nesse mundo se vai. Quando não se vai, multiplica, trazendo tristeza ou espalhando felicidade dentro de um coração. Ultimamente algo desconhecido me incomoda e me faz pensar em anos antigos, onde ser criança era ter mente pacífica, suave, bonita. Ser criança, chegando aos onze anos e cruelmente receber um choque de realidade: talvez meu pai nunca fosse me cobrir para sempre com um lençol repleto de amor. Talvez meu irmão nunca me chamaria de "cabeção" da mesma maneira. Talvez, algum dia, abraçar a quem já amei significava correr à um avião de lembranças passadas ou de destino a outro país. As coisas mudaram, sabe? E suponho que dentro de três anos, tenham mudado ainda mais. O mundo. Nós. A cada dia que a vida adulta se aproxima, a responsabilidade de crescer e deixar para trás tudo o que um dia valia a minha vida, me assusta cada vez mais. Conforme sinto essa drástica mudança, sei que continuarei chorando pelas injustiças da minha mãe, ela tá perdida em outro lugar, outra vida presente. No final do dia, ela se perdeu e eu me perdi ao tentar encontrar ela. O Alberto abusou tanto da mente dela que eu abusei a mim mesma com a ganância de pensar que ele entenderia o ódio brutal que sinto por ele. O cansaço de ter que cuidar de bebês que não são meus. Machuca bastante, eu não tenho tempo de ser vaidosa, sou sempre puxada por cordas e talvez nesses apertos ao me puxar, eu me mantenho de pé. Isso não é um desabafo. É um aviso. Espero que você não esteja mais da maneira que eu estou. Espero que você tenha crescido mentalmente, mais do que eu estou sendo forçada a crescer nesse momento. Me faz rir porque estou escrevendo isso como se eu fosse ter 40 anos ao receber essa carta. Os anos passam como se nada. Desde a minha última carta eu sinto que não mudei nada. É triste e me faz sentir inútil. Eu te amo. Somos uma, Mar.

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