A letter from Aug 17th, 2021

Time Travelled — almost 5 years

Peaceful right?

Olá, Ju do futuro. Aqui é quem fala é ela, a sua versão do passado. Tá passada? Advinha??? As palavras tão no grau, mami. (Ainda se lembra desse meme pandêmico?) Não pretendo me referir a você na primeira pessoa, pois com o passar dos anos, mudei e me transmutei tantas vezes, que já não posso dizer que a pessoa que eu era no passado corresponde à quem sou hoje, quem dirá se a pessoa que me tornarei no futuro tem algo a ver comigo hoje... Por isso, pretendo me referir à ti como alguém que ainda não conheço e tentar te fazer me conhecer, para que, de alguma forma, você melhor se encontre no processo de autoconhecimento. Sei que cinco anos passam voando, que a vida é efêmera e que tudo está sujeito à mudança, mas quero registrar hoje, tudo o que contempla a condição subjetiva da minha existência, para que você olhe para o passado e consiga observar essas mudanças de forma objetiva e que consiga perceber o quanto você cresceu. Hoje é dia 17 de agosto, de 2021. Fazem 7 dias que completei 26 anos e escrevo esse trecho às 22:22h. Várias coisas vêm passando na minha cabeça nesse momento do meu ciclo vital, sobretudo, crenças negativas e um imensurável desânimo, concomitante a um enorme vazio existencial. Quando escrevi uma carta para mim mesma no ano de 2015, esperava que com a idade que me encontro, eu estaria realizada profissionalmente, financeiramente e emocionalmente. É triste que eu tenha quebrado tanto as expectativas da minha versão passada, mas hoje, não me encontro em um estado emocional nada satisfatório. Não cheguei a ler a carta que fiz pra mim mesma no passado, mas me lembro de algumas expectativas que depositei nas palavras. Mas, apesar das frustrações, tenho consciência que não sou culpada pelas dores e traumas que carrego, mesmo que muita coisa seja consequência das minhas escolhas - algumas bem erradas - o momento social e o cenário que o Brasil e o mundo está enfrentando, deixará marcas irreversíveis. Faz cerca de um mês que me formei, ainda estou aguardando o processo de solicitação da declaração de conclusão de curso para solicitar o meu CRP. Não tenho nenhum dinheiro para pagar a taxa do título na categoria (ainda) e tentar buscar o mínimo de condição financeira está sendo um grande desafio. Atualmente, tenho feito alguns serviços informais/freelancer na plataforma "vintepila", corrigindo textos acadêmicos, criando resenhas, resumos, auxiliando acadêmicos em produções que eles não querem ou não sabem fazer. Não é algo que me traz satisfação, confesso, mas tem me tirado do sufoco nos momentos em que não tenho nenhum dinheiro. Estou tentando muito me recolocar no mercado de trabalho, procurando várias oportunidades, inclusive fora do âmbito da Psicologia para que eu possa buscar algum subsídio financeiro para me estabilizar na minha área. Porém, a situação do desemprego está alarmante no país, estou sentindo de forma intensa as consequências de uma economia deficitária. Fora as poucas vagas que surgem nos bancos de vagas de emprego na internet, tanto na minha área quanto fora dela, vejo que muitas pessoas estão em situação de desemprego, percebo que as empresas estão baixando seus parâmetros de condições dignas de trabalho, pagando pouco, dando apenas o salário mínimo e exigindo muito mais funções do que é viável aos cargos publicados. Outro aspecto que vem me incomodando, é a relação de candidatos por vaga. É exorbitante de quantidade de inscritos para o mesmo cargo, com muitos profissionais qualificados, buscando algo fora de suas áreas. Percebo que os altos índices de desemprego publicados nos meios de comunicação em massa, não são só dados e estatística, vivo na pele a dificuldade de milhões de brasileiros. As vezes (muitas vezes na verdade) me sinto inútil, me sinto mal de não conseguir nada na minha área, me sinto mal por ser uma profissional formada que nem um emprego que não requer graduação consegue. Mas ao mesmo tempo, percebo que só me sinto assim, pelo contexto caótico que estamos vivendo no Brasil. O fascismo está avançando à plenos pulmões, todos os dias somos bombardeados com notícias que geram revolta e indignação, enfrentamos o ápice de uma crise sanitária que, quanto mais tempo ficamos nela, parece cada vez mais longe de acabar. Viver um evento histórico não é nada fácil e percebo que não é só comigo, mas me dói ver os efeitos do capitalismo tardio e do caos que se estabeleceu em função dessa presidência inconstitucional que Bolsonaro vem conduzindo. Jamais odiei alguém com tanta veemência quanto odeio esse homem, que parece ter alocado um apartamento em nossas mentes, ligando a furadeira todos os dias às 6h da manhã. Fora o contexto que mencionei, que vem desgraçando minhas vivências e me tirando o combustível volitivo todos os dias, esse cenário quase apocalíptico parece ter perseverado em mim várias questões que já vinha lutando para lidar. Quero muito fazer terapia, me vincular à um processo terapêutico e enfrentar todos os fenômenos traumáticos que estou carregado, mas não encontro condições favoráveis pra isso, já que nem dinheiro para me sustentar eu tenho. Estou sendo sustentada pela minha mãe, que tem lutado para manter a casa com seu salário de aposentada. Ela também está com o emocional abalado por várias coisas que ela passou na vida, assim como a minha irmã que está em transição da fase da adolescência para a fase adulta e sequer consegue ser um adulto funcional devido à tantos processos traumáticos. Muitas coisas refletem com clareza o fato de que a vida adulta é difícil, mas a maior delas é ter que aprender a lidar com a impermanência na marra. Nada permanece na minha vida por muito tempo e isso me incomoda, principalmente a falta de estabilidade, mas sobretudo, no que tange às relações. Quando iniciou a pandemia, fui obrigada a lidar com aspectos que não estava preparada - assim como todo mundo, pois ninguém esperava uma crise sanitária tão repentina e abrupta - mas dentre elas, o que mais me doeu foi perder meu amigo. Ele não morreu, mas hoje somos dois estranhos um para o outro. Não consigo perdoá-lo - e nem quero nesse momento - me doeu muito saber que a pessoa que eu mais amava, o meu melhor amigo, não tinha metade da consideração que eu tinha por ele. Quando a pandemia começou, eu já estava mal, com o desemprego, com a dificuldade de arrumar um estágio, lidando com a fobia social e com meus monstros e, ele também não estava bem, passando pelo mesmo perrengue financeiro que eu. Acabei passando por cima das minhas necessidades por querer ajuda-lo, mas ele se aproveitou disso. Ele sabia que eu também não estava nada bem, passava por dificuldades em casa e sofria com depressão, mas usou do meu afeto por ele para se beneficiar. Fiz o TCC sozinha, assim como várias provas da faculdade, atividades, estudos de caso... enfim, todas as obrigações acadêmicas dobradas. Ele disse que estava sem internet e impossibilitado de fazer, disse que estava com depressão e não conseguia focar, disse que estava viajando, que estava atarefado, que estava sem notebook... inventou várias desculpas para continuar empurrando o semestre e eu fazendo tudo por ele. No final das contas descobri que grande parte do que ele me contou era mentira e ele, deliberadamente, sabendo que me sobrecarregava, buscou se beneficiar com a situação. Depois de muito conflito, tentativas de perdão, decidi que não queria uma pessoa assim na minha vida mais e cortei a relação com ele. Por que mencionei isso tudo? Simplesmente para contextualizar a dificuldade de lidar com a impermanência, pois, depois desse acontecimento, muita coisa piorou em mim. Me vejo em um tipo de apego que depende emocionalmente das pessoas, que projeta nos outros suas frustrações, leva tudo para o lado pessoal e não consegue confiar nos outros, consequentemente, acabo me privando de novas experiências e sabotando minhas relações. Sempre tive dificuldades de interação, você sabe... Mas, aparentemente, isso vem se intensificando cada vez mais. Ultimamente minhas interações tem sido um grande peso para mim. Eu não me sinto bem vinda mais em lugar nenhum, ando tendo cada vez ais dificuldade de falar, me sinto inexpressiva, levo toda brincadeira pro pessoal, me ofendo, fico triste e parece que interagir me suga. Minha bateria social está mais baixa do que nunca e quando estou sozinha não consigo me recarregar, me sinto mal por estar sozinha, parece que não tenho ninguém para confiar verdadeiramente, para me expressar de forma genuína, estou sempre vestindo uma mascara para vestir as expectativas alheias. Meu maior desejo, tem sido lidar com a fobia social de forma mais assertiva, para que eu possa me expressar e me comunicar de forma autentica, sem pensar que sou incômoda e sem pensar que não sou capaz. Quero viver um romance sem o peso de ser uma inconveniente e insegura, quero me expressar de forma genuína sem sentir que sou uma fracassada. Quero sair da casa da minha mãe e adquirir minha independência financeira. Enfim, quero sentir pulsão de vida e vontade de viver. Quero que passe a vontade de deixar de existir e seguir pra onde meu desejo aponta. Quero me sentir amada, querida, parar de me sentir odiada só por existir. Quero encontrar minhas qualidades, me sentir feliz sendo a pessoa que me tornei. Espero passar no programa de residência, ou num concurso nos próximos anos e para isso, iniciarei amanhã um novo projeto, focado nas residências multiprofissionais. Quem sabe, dentro de cinco anos, não alcanço o que queria. Ou, quem sabe, eu nunca volte a ler essas palavras e talvez não resista a esse momento difícil. Não queria chegar ao ponto de induzir e antecipar minha morte, mas ninguém sabe o futuro que a vida reserva.

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