A letter from February 26th, 2021

Time Travelled — almost 5 years

Peaceful right?

Pela primeira vez, há mais coisas que eu gostaria de dizer — escrever — do que o habitual. Nenhum delas é realmente boa, talvez fosse melhor se eu não colocasse pra fora, colocar sentimentos em palavras os tornam mais reais. Seja quando for que receber essa carta — se receber — saiba que não vai acrescentar em nada em sua vida. Não preciso que leia, apenas precisava escrever isso onde ninguém pudesse encontrar. Em primeiro lugar, não tenho sentido bem estar. Esse problema começou a mais de uma semana, quando fiz um arroz e ele estava horrível de verdade, mesmo que eu não houvesse feito nada fora do comum. Depois disso, comecei a notar esse sabor horrível no alho, mas com o passar dos dias ele foi se espalhando para outros alimentos, até que tudo que consigo comer sem forçar são legumes, verduras, frutas e leite. Não parece tão ruim assim, mas me incomoda profundamente. Eu não tinha muita apetite antes disso. Não era preguiça de comer, eu apenas não tinha vontade, não via graça na comida. E isso sempre inspirou reclamações aqui em casa. Se ninguém quis dizer em voz alta que isso é um castigo para que eu aprenda a valorizar a comida, ao menos pensaram. Eu realmente queria poder voltar a sentir o gosto normal das coisas. É horrível ter que forçar a comida garganta a baixo e, mesmo fazendo isso, sinto meu corpo enfraquecer. Um leve mal estar mesmo sem tanto esforço, cansaço e sono, dores de cabeça todos os dias. Tem sido horrível. E mesmo quando como algo que ainda permanece gostoso, como pastel de queijo, me sinto culpada por comer. Acho que esse é o efeito colateral da academia. Agora engordar me apavora um pouco mais, ainda que eu mesma saiba que tenho dificuldade de engordar. Ainda que eu saiba que não uma mudança de corpo não é tão espontânea, eu me sinto culpada por comer coisas gostosas. Aliás, minha mãe avisou que não vamos mais a academia, disse para que escolhessemos um notebook e que ela não conseguiria pagar os dois. E isso me deixou triste por nenhum motivo específico. As vezes eu acho que ela não quer que a acompanhemos por lá. Parece que ela não quer que façamos academia. A ideia de parar me deprime. Pensar em contar os dias e aproveitar enquanto posso é desagradável. Eu preferiria não pisar mais lá à contar os dias restantes. Eu sei que não é nenhum problema. Ela está certa, afinal. Ademais, quando eu começar a trabalhar, posso voltar e pagar com meu próprio salário. Esse é o certo. Quero me convencer de que eu prefiro a o notebook à fazer musculação (que, nem de longe, combina comigo). Mas não é o que está acontecendo. E isso nos leva a um segundo problema: eu me odeio. A ideia de conviver com a minha aparência tem me assustado mais do que pensar em estudar no nosso computador velhinho e quase parando. E isso está terrivelmente errado, eu sempre soube que estudos viriam primeiro e aparência é só algo superficial. Mas o problema é que eu tenho me importado. Porque simplesmente não suporto meu reflexo. E sei que não é culpa do meu corpo ou do meu rosto, da minha genética. Sou eu, alguma parte de mim não se contenta com o que tem e eu não sei como mudar isso. Eu vejo todo mundo estando tão lindo, tendo características que eu poderia passar horas admirando. Todos têm. Mas não consigo me sentir assim comigo mesma. É simplesmente difícil demais. E pensamentos assim tem me atormentado nos últimos dias. Me lembro de coisas que as pessoas me dizem e que me machucam, cutuca inseguranças que eu preferia não recordar que tenho. "Nossa, olha como o rosto dela tá cheio de espinha. Faz uma máscara de argila", "é bom um sutiã com bojo pra ela, né?", "Você tá menos tábua". Eu não sei qual foi especificamente o problema que me levou a lembrar dessas coisas. Pode ter sido o problema com a comida que me impediu de ir durante toda a semana à academia. Ou talvez meu corpo tenha mudado e de alguma forma eu percebi. Não sei. De qualquer forma, desinstalei o Instagram. Como se isso fosse resolver. E também desinstalei por outro motivo. Que nos leva a um terceiro problema. Eu queria tanto ser independente. Por tantas razões. Queria poder ter um trabalho, um salário que pudesse me ajudar a sobreviver e ter um cantinho que não é o meu, mas que servisse. Então eu não precisaria me sentir culpada por não gostar do meu cabelo e querer fazer nele algo que me faria sentir melhor. Ou achar que fazer tatuagens fará eu me arrepender para sempre. Ou me sentir pecaminosa por ser quem eu sou. Ou fingir que gosto de ir para igreja. Eu não precisaria de nada disso. É claro que não são só flores. Com certeza vai ter mais partes difíceis do que boas. Hoje em dia eu tenho medos irracionais. Medo de contar coisas bobas pra minha mãe. Medo de reafirmar quem eu sou. Medo de dizer que quero mudar tal coisa em mim. Medo de ela olhar meu Instagram e descobrir que gosto de Korrasami, She-ra e Catra. Medo de mostrar os livros que leio. Medo de ela ler minhas mensagens (coisa que me faria sentir muito invadida, ainda que não tenha nada de errado por lá). Se eu fosse independente, apesar dos perrengues, não precisaria ter medo. Não precisaria sentir mágoa por nada. Seria melhor para a nossa relação. O pior de tudo, que me faz eu sentir uma pessoa horrível, as vezes eu sinto raiva. Não dela especificamente, mas dos outros parentes, sobretudo de mim. As vezes eu queria estar longe. (Me tornei quem eu mais temia: Ari Angel) Não gosto disso, não mesmo. Se eu não precisasse me preocupar com o "embaixo do meu teto, você faz o que eu quiser", provavelmente não me importaria tanto com os preconceitos que eu sei que eles têm. Queria poder dizer "é você que paga as minhas contas?". Não posso ser controlada para sempre. E eu ODEIO fingir que sou essa garota inocente, estudiosa, dentro da linha e que não se importa com coisas fúteis. Eu me importo, sim! Não sou ingênua, sou estudiosa porque gosto de aprender, mas isso não significa que eu seja a "santinha". Odeio fingir. Odeio ainda mais ser tão tímida e me retrair tanto por medo. Eu nunca vivi nada memorável por mim mesma. Nunca criei uma memória que eu pudesse visitar e dizer "aquele dia foi incrível, eu fui tão corajosa". Me sinto tão presa. Tão idiota dentro de um corpo que eu nem gosto. Me sinto uma pessoa tão horrível. Me chame de ingrata, diga que Deus vai me castigar, faça o que quiser. Estou começando a não ligar para mais nada. E amanhã eu vou varrer todas essa coisas negativas para o fundo da minha mente inde eu não posso alcançar e estudar o máximo que posso, porque sei que é o melhor caminho. Preciso ir bem no tal vestibular. PRECISO arrumar um emprego. Preciso ser independente. Nunca me arrependi tanto por ter tido passarinhos presos em gaiolas aqui em casa e ter visto isso como uma coisa normal.

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