Dear FutureMe,
Hoje é um daqueles dias extremamente ordinários. A respeito disto, você se encontra com menos certezas que nunca. Está sentado diante de uma cópia digital do livro As horas, continua a ler, embora já conheça a história e tenha visto o filme uma centena de vezes. Aos 23 anos o que você sabe é que os livros mu*** mais rapidamente que nós mesmos, leio uma frase agora e uma hora depois ela tem outro sentido.
Você acabou de interromper este pensamento por se dar conta que é 2011 e a sua internet é tão lenta quanto era há 10 anos. Está a espera da conclusão de um download, um episódio de uma série americana que trata de um universo extremamente conhecido embora pouco explorado. A adolescência. Você está fazendo isto, pois ontem, ficou de mandar uma cena deste episódio para um amigo que estava em crise e precisava de umas respostas. Como não podia lembrar-se exatamente o que dizia a personagem resolveu baixar o arquivo completo, depois de ter procurado a cena individualmente em canais de vídeo. Hoje, pela manhã, ao abrir o email, você, meu caro eu, recebeu um convite extremamente inesperado. Uma professora que muito o estimava, e você nunca soube o quanto, pediu para escrever um artigo sobre você mesmo para publicar no jornal da escola, supondo que tenha conseguido ultrapassar o ensino médio e a universidade com alguém extremamente bem sucedido. "SAUDADES! SEI QUE É UM SUCESSO. VOU LHE PEDIR UM GRANDE FAVOR. (...) CONHEÇO O SEU POTENCIAL.. É ENORME DIANTE DE MUITOS QUE CONHECI. DÊ LEMBRANÇAS A TDS DA FAMÍLIA.
BJS,
ISABEL
No começo você se sentiu bastante lisonjeado, consecutivamente seus olhos marejaram, de repente estava sendo tragado por ondas violentas e como em todas estas alucinações você se encontra de braços abertos, sem lutar, mas deixando-se levar. Pensa que não é ninguém, muito menos pode escrever sobre você mesmo sem parecer pedante ou elogiar-se demais, muito deprimente também, ou então, desprezar o que realmente importa sobre você por não estar certo do que é.
Mas você vai escrever. Lembra também que poderá usar a mesma fala da série americana, que vai mandar para seu amigo, neste artigo. Você sempre quis inspirar as pessoas. Nunca esteve certo, realmente, se podia fazer isto e suspeito que não estará no dia em que receber este email. Aliás, será mesmo que você vai estar vivo para ler isto novamente?
Será que como outras muitas cartas que escreveu esta também se perderá?
Este convite, no entanto, completamente propício e cheio de coincidências, talvez o faça sair do marasmo que está. Há dois dias estava pensando realmente em voltar a escrever. Sempre fizera isto, desde criança. Escreve para você mesmo e pede para que leiam. É um jeito que tem para conversar com as pessoas. Por este motivo sempre achou que fosse se tornar escritor, não tem um único livro ainda, até hoje limitou-se a fazer pastiches dos autores que admira, mas dificilmente termina um romance. Sempre adia suas leituras em função de prazeres mais imediatos e no entanto tão duradouros quanto a vida de um mosquito.
Ultimamente, nem tem mais estes prazeres. Limita-se a lamentar-se pelos cantos da casa de seus pais, ou a esperar uma chamada telefônica, sendo que na maioria do tempo deseja que um raio ou um piano caia sobre você.
Você está namorando, um mês. Ontem descobriu que seu namorado tem um pênis de borracha, sem querer. Fingiu não notar. Tem-se perguntado realmente se você consegue satisfazê-lo. Será que ele finge orgasmos?
No fundo você sabe que isto não dará certo. Ele é sua passagem secreta para fora da realidade, só isto. Você não o ama. Não o admira em nada, absolutamente nada. Talvez inveje um pouco a falta de personalidade ou o automatismo, mas reconhece que mesmo ele e pessoas como ele, admitem, vez ou outra, um vazio, completamente inexplicável e neste ponto você é igualmente precário. Embora não sinta amor ou aquele arroubo de possibilidades e paixão de quando era mais novo, pensa em ficar com ele. Já tentou demais e no final todas as pessoas se parecem. Ele parece calmo, algo bastante raro. Você imagina que será você a bater portas, como sempre, a chorar ou se arrepender, não ele.
Na verdade, enquanto voltava da casa dele ontem, também pensava em algo extremamente cruel e egoísta. Poderia ficar com ele até que outro aparecesse. E para se confortar, pensou, não é assim afinal que todos fazem?
Acabou de receber uma mensagem dele no celular. Uma pergunta banal e sem sentido sobre a foto que você usa no seu perfil de uma rede social. Ele faz-se lembrar o tempo inteiro. Está on line, mas você disse uma mentira para não precisar ficar no computador a conversar sobre qualquer coisa ou reclamar da vida para ele, embora esteja e a reclamar para um você que ainda não conhece, que receberá esta carta no futuro. Acaba de suspeitar que as chances de estar sozinho no futuro são maiores do que estar com ele, infinitamente maiores. E em segundo lugar, as chances de estar morto.
De vez em quando fica assustado com o fato de não mais temer a morte como antes.
Agora, você vai parar e tomar um café. Sua mãe chegou no dentista e você irá sentar com ela na mesa. Até daqui a pouco.
Você comeu um pão doce, adiantou um dos poucos afazeres do dia com sua mãe. Vai fazer o almoço daqui a pouco. Frango a passarinho. Ainda sobra um resto de prazer ao cozinhar e se sair bem nisto. Também queria fazer um bolo, mas não está inspirado. Há dois dias estava.
O pão doce figura na sua mente. Está se sentindo culpado, queria realmente emagrecer e se sentir bem com seu corpo. Não faz a mínima ideia do que é isto e mais uma vez se parece com a maioria das pessoas.
Acabou de conferir as pessoas que estão on line no msn. A pedreira perto da sua casa acaba de explodir a montanha. Um som de guerra, imagino. Mas ninguém se abala. As vizinhas nem interrompem o que estão falando. Você consegue ouvi-las, mas não as palavras. Lá da cozinha ouve sua mãe a marcar por telefone um banho para a poodle, que certamente estará morta quando você receber esta carta.
Eu interrompi uma vez mais esta carta. Voltei a ler As Horas, cheguei no momento em que Laura Brown é apresentada ao leitor. A "rapariga", já que leio uma tradução portuguesa, que era sempre deixada de lado para ser sossegada foi escolhida por um herói de guerra americano.
Neste momento pensei, nunca fui assim. Sempre quis ser notado, sempre me fiz ser notado. Gosto de seduzir, sinto-me completamente abalado quando não me percebem.
Quero acabar logo. Se continuar ficarei narrando o dia inteiro o que poderia ser o dia de qualquer pessoa. Acabei de entregar a Maria Clara ao motociclista. Não disse a ela: - Não tema, pois você voltará.
Nem ao menos me despedi. Se ela fosse humana sentiria a pior coisa que se pode sentir, abandonada.
kezialimaa:
about 1 year ago